Russo não pode desistir da guerra, mas o custo de mantê-la está aumentando

A guerra iniciada por Vladimir Putin contra a Ucrânia transformou-se no maior erro estratégico da Rússia pós-soviética. Após anos de combates, o conflito não produziu a vitória decisiva prometida pelo Kremlin, tampouco levou ao colapso do Estado ucraniano. Em vez disso, consolidou um impasse militar, elevou drasticamente os custos econômicos internos e colocou Moscou em uma posição de desgaste estrutural prolongado.
Um impasse no campo de batalha
Historicamente, a narrativa militar russa é ancorada na chamada Grande Guerra Patriótica, quando o Exército Vermelho avançou de Moscou a Berlim entre 1941 e 1945. A comparação com o cenário atual é inevitável — e desfavorável ao Kremlin. Em anos de ofensiva no Donetsk, o avanço territorial foi marginal, medido em dezenas de quilômetros, ao custo de centenas de milhares de baixas.
A guerra moderna impôs uma transformação tática profunda. A chamada “zona de morte” — entre 10 e 30 km da linha de frente — é saturada por drones, vigilância eletrônica e artilharia guiada. A concentração de tropas tornou-se vulnerável, reduzindo drasticamente a capacidade de ruptura operacional. A Rússia enfrenta dificuldades para gerar massa crítica de combate suficiente para romper linhas ucranianas fortificadas, e, mesmo quando obtém ganhos pontuais, não consegue explorá-los em profundidade.
Além disso, o recrutamento tornou-se cada vez mais oneroso. O Estado russo depende majoritariamente de incentivos financeiros para atrair soldados. Bônus de alistamento crescentes pressionam o orçamento, enquanto relatos de baixa moral, treinamento inadequado e deserções elevadas indicam deterioração qualitativa da força.
A economia de guerra sob pressão
A militarização acelerada da economia russa alterou profundamente sua estrutura. Gastos com defesa atingiram patamares equivalentes a cerca de 8% do PIB, redirecionando recursos produtivos e restringindo investimentos civis. O financiamento desse esforço ocorre à custa de déficits elevados, expansão da dívida e dependência crescente de receitas energéticas — especialmente petróleo.
Entretanto, o cenário externo é adverso. Investigações e sanções sobre a “frota sombra” que escoa petróleo russo e pressões sobre compradores estratégicos podem reduzir receitas de exportação. Ao mesmo tempo, a Rússia tornou-se mais dependente da China para apoio financeiro e tecnológico, o que enfraquece sua autonomia estratégica — ironicamente, um dos pilares do discurso de soberania defendido pelo Kremlin.
A manutenção prolongada da guerra impõe um dilema clássico de economia política: continuar financiando o conflito corrói o setor produtivo e reduz o potencial de crescimento de longo prazo; encerrá-lo abruptamente exige reconversão econômica complexa, absorção de veteranos e reequilíbrio fiscal — um processo potencialmente recessivo.
O cálculo político de Putin
Para Vladimir Putin, a guerra não é apenas um conflito externo; é também um instrumento de legitimidade interna. A narrativa de confronto existencial contra o Ocidente sustenta coesão política e justifica restrições internas. Encerrar o conflito sem ganhos claros exporia o regime a questionamentos sobre custos humanos, corrupção e falhas estratégicas.
Há precedentes históricos que pesam nesse cálculo. A experiência russa após a guerra no Afeganistão nos anos 1980 demonstrou como veteranos descontentes podem contribuir para instabilidade política. Processos semelhantes ocorreram antes da Revolução de 1917. A paz, paradoxalmente, pode ser mais arriscada ao regime do que a continuidade controlada da guerra.
A dimensão internacional
Muitos analistas apostaram que pressões externas — inclusive de lideranças como Donald Trump — forçariam Kiev a aceitar concessões territoriais. Contudo, a margem de manobra para impor um acordo desfavorável à Ucrânia diminuiu. O presidente Volodymyr Zelensky mantém respaldo europeu significativo, e a União Europeia ampliou assistência militar e financeira.
Além disso, qualquer acordo que envolva garantias de segurança formais exigiria aprovação legislativa nos Estados Unidos, criando obstáculos institucionais relevantes. A dependência ucraniana de inteligência e financiamento americanos reduziu-se progressivamente, diminuindo a capacidade de coerção unilateral.
Um conflito de desgaste
O cenário que emerge é o de uma guerra de atrito. Nenhum dos lados demonstra capacidade imediata de vitória decisiva. A Rússia pode continuar atacando infraestrutura e cidades para pressionar a moral ucraniana, mas ataques aéreos isolados raramente forçam capitulação política. Por outro lado, a Ucrânia enfrenta limitações demográficas e logísticas que tornam o prolongamento indefinido igualmente oneroso.
Nesse contexto, a estratégia ocidental concentra-se em elevar o custo marginal da guerra para Moscou — por meio de sanções energéticas mais eficazes, restrições tecnológicas e combate à desinformação. A lógica é simples: quanto maior o custo interno para a Rússia, maior a probabilidade de revisão estratégica no Kremlin.
Conclusão
Putin encontra-se em um dilema estrutural. Desistir significaria admitir fracasso e arriscar instabilidade interna. Persistir implica aprofundar desequilíbrios econômicos e ampliar o desgaste humano e político. A guerra, concebida como instrumento de afirmação histórica, converteu-se em armadilha estratégica.
O desfecho dependerá menos de discursos e mais de variáveis concretas: capacidade de mobilização militar, resiliência econômica, coesão política e sustentabilidade fiscal. Se o custo continuar crescendo sem ganhos proporcionais, a pressão interna poderá tornar-se o fator decisivo. Até lá, Rússia e Ucrânia permanecem presas a um conflito que nenhum dos dois pode facilmente vencer — mas que ambos continuam incapazes de abandonar.
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Seria de se esperar que, após quatro anos sangrentos, uma guerra na qual nenhum dos lados consegue vencer já tivesse se extinguido por si só. Mas não a guerra na Ucrânia. E a culpa recai sobre um homem.
Vladimir Putin está preso em um dilema que ele mesmo criou. As chances de seus Exércitos na Ucrânia conquistarem algo que ele possa chamar de vitória estão diminuindo. Muitos esperam que as negociações de paz, que continuam em Genebra, lhe ofereçam uma saída, pois o presidente Donald Trump forçará a Ucrânia a ceder território. Na verdade, essa rota de fuga está se tornando cada vez menos provável. E mesmo que um acordo de paz seja concluído, as consequências dentro da Rússia acarretariam risco de instabilidade econômica e política, arruinando os planos de Putin de figurar entre os maiores czares da história.
O primeiro problema para o presidente russo é o campo de batalha. Na Grande Guerra Patriótica, de junho de 1941 a maio de 1945, o Exército Vermelho avançou 1.600 km de Moscou a Berlim. Nesta guerra prolongada, as forças russas em Donetsk, o foco principal, avançaram apenas 60 km — a distância entre Washington e Baltimore.
A Rússia não conseguiu gerar força de combate suficiente para romper as linhas ucranianas. Na “zona de morte” de 10 a 30 km ao redor da linha de frente, vulnerável a drones e seus operadores onipresentes, soldados e equipamentos não podem se concentrar sem se tornarem alvos. Mesmo que as forças russas consigam romper as linhas ucranianas, terão dificuldades para explorar esse sucesso.
Na trajetória atual, Putin não conseguirá mudar isso. Nos primeiros três anos, a Rússia estava fortalecendo seu Exército. No final do ano passado, estava perdendo mais homens do que conseguia recrutar. Eles são mal treinados, o moral está baixo e as taxas de deserção são mais altas do que nunca. A Starlink cortou o acesso das forças russas aos terminais contrabandeados dos quais dependiam para localização de alvos. O próprio governo russo cortou o Telegram, que eles usavam para se comunicar na linha de frente.
Putin terá dificuldades para aumentar o número e a qualidade dos recrutas. A Rússia depende de dinheiro, não de patriotismo, para recrutar soldados. A probabilidade de morte ou ferimentos, a negligência com os veteranos e a tentativa do Estado de se esquivar do pagamento de indenizações às famílias dos soldados mortos em combate estão elevando o custo do recrutamento.
Desde junho de 2025, segundo o think tank “Re: Russia”, o bônus médio de alistamento aumentou em 0,5 milhão de rublos, chegando a 2,43 milhões de rublos (US$ 32.000). O dinheiro está cada vez mais escasso. A conta anual de 5,1 trilhões de rublos para cobrir tudo isso equivale a 90% do déficit orçamentário federal. O restante da economia está encolhendo. Os pagamentos da dívida estão aumentando. A perspectiva para as receitas do petróleo é ruim.
O esforço de guerra da Rússia não está prestes a ruir. Putin pode atacar cidades e redes elétricas ucranianas para destruir o moral e a economia. Mas ataques aéreos por si só dificilmente levarão à capitulação. Ele pode acreditar que a Europa abandonará a Ucrânia, mas o apoio europeu aumentou no ano passado.
Sua maior esperança talvez seja que a Ucrânia, sofrendo com graves escassez de mão de obra e equipamentos, entre em crise política ou comece a ficar sem combatentes e armas antes da Rússia. No entanto, a aposta de Putin no colapso ucraniano tem se mostrado perdedora nos últimos quatro anos — e as probabilidades estão diminuindo.
Por que, então, ele não concorda com a paz? Se Putin pudesse consolidar os ganhos da Rússia e se reagrupar, ele sempre poderia atacar a Ucrânia novamente em algum momento no futuro.
Na verdade, é improvável que qualquer plano de paz satisfaça a Rússia. As negociações têm um caráter de fachada, ilustrado pela promessa absurda de um dividendo de paz de US$ 12 trilhões, grande parte a ser dividida entre a Rússia e os Estados Unidos. Também é improvável que elas deem a Putin o território que ele não conseguiu tomar pela força e que deseja para declarar vitória.
Para a Ucrânia, entregar seu território mais bem defendido seria um desastre estratégico. E embora Trump ainda tenha influência, sua capacidade de pressionar Volodmir Zelenski, presidente da Ucrânia, a aceitar um mau acordo já passou do seu auge. É verdade que os Estados Unidos ainda vendem armas vitais para a Europa, que as repassa para a Ucrânia. Mas a Ucrânia agora depende menos da inteligência americana do que antes, e os Estados Unidos reduziram seu financiamento da guerra em 99%. Se, como parece provável, qualquer acordo de paz envolver garantias de segurança americanas para a Ucrânia que sejam consagradas em um tratado, o Senado terá que ratificá-lo. Isso também ajudará a evitar um acordo unilateral.
Outro motivo para Putin ser cauteloso em relação a um acordo é que a própria paz poderia desencadear uma crise na Rússia. A Rússia desviou tantos recursos para a defesa - agora esses gastos representam 8% do PIB - que o restante da economia está debilitado. A ilegalidade do regime e a perspectiva de novas hostilidades afastarão novos investidores. O desafio de redirecionar recursos da guerra para a paz, incluindo a busca de trabalho para os soldados que retornam da frente de batalha, poderia provocar uma profunda recessão.
A situação política também seria desagradável. Veteranos descontentes desestabilizam regimes, especialmente na Rússia, como aconteceu antes da revolução de 1917 e depois da guerra no Afeganistão na década de 1980. As pesquisas sugerem que os russos inicialmente acolheriam bem o fim dos combates. Mas certamente surgiriam questionamentos: sobre a campanha mal conduzida, o desperdício de vidas e recursos, e a humilhante dependência da Rússia em relação à China para apoio financeiro e militar em nome da preservação de sua própria civilização. Isso poderia limitar a capacidade de Putin de reiniciar a guerra. Isso poderia até representar uma ameaça ao seu poder.
Putin não pode desistir da guerra, mas o custo de mantê-la está aumentando. Se suas tentativas de gerar mais poderio militar apenas enfraquecerem ainda mais a Rússia, isso poderá levar a uma crise. Caso contrário, a Ucrânia e a Rússia ficarão presas em um conflito. Há algo que possa ser feito para pôr fim a isso? Investigar a frota secreta da Rússia e ativar um plano do Senado para punir os compradores de seu petróleo poderia limitar as receitas de exportação. Combater a propaganda de Putin de que os Estados Unidos e a Europa estão empenhados em destruir a Rússia ajudaria. Assim como corrigir suas alegações de uma inevitável vitória russa: ninguém, muito menos Trump, gosta de apoiar um perdedor.
É difícil forçar um ditador a agir. Em última análise, a disposição de Putin em continuar lutando depende da dor que ele está disposto a infligir. Mas quanto mais dor houver, mais claro ficará para os russos que ele está trazendo a ruína para eles.
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